O descaso com o uniforme escolar
- José Roberto Carvalho Trajano

- 30 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
Compartilhamos de uma igualdade apenas em Deus, Ele, quem eleva ou rebaixa todos à verdadeira altura perante sua imensidão. Mas essa verdade nos é fugidia, e somos inclinados a julgar em primeira vista a imagem que capturamos da realidade.
O uniforme serve justamente para preencher essa lacuna da percepção ainda presente no jovem. O ideal material que está no uso do uniforme é o primeiro sentimento de pertencimento a uma busca em comum e uma base de princípios.
Essa é a serventia do uniforme, tudo o mais de benefícios, surgem como consequência. Como por exemplo, a segurança, é óbvio que o uniforme ajuda, mas nenhuma escola deve se basear no uniforme como meio de prevenção.
O aluno com o uniforme, está numa jornada onde sabe que não a percorre sozinho; se por acaso se desviar, saberá, na imagem criada pelo uniforme, para qual caminho mental retornar, ou por muitas vezes, onde procurar ajuda na imagem de algo concreto e real.
O uniforme é a representação mais primitiva de um ideal, mas necessário ainda assim. O aluno aprenderá a reconhecer seus irmãos em um pequeno grupo, para então, compactuar com todos os outros que não compartilham de sua vestimenta, onde através do chamado à maturidade começam a compreender que o uniforme está na alma de quem vê.
Mas se o uniforme pode ser usado para compactuar com a identidade e elevação de um ideal, ele também estará sujeito a degradá-lo.
Como acontece nas escolas públicas da cidade de Esteio, minha cidade, região metropolitana de Porto Alegre, que por uma falta de bom senso e controle, vemos mães, pais, adultos, e pior, catadores e moradores de rua usando o mesmo traje daqueles que supostamente seriam o futuro da sociedade.
Para a maioria dos homens e das mulheres - sem julgar o indivíduo que está nessa situação, mas apenas a situação em si que aparece na frente de nossos olhos - pergunto: como se sentiriam, ao se depararem trajando o mesmo que aqueles que estão na rua, por vezes, com sérios problemas psicológicos, passando necessidades ou fazendo uso de drogas que os arrastam para a demência?
Há muitas vilas em Esteio e eu moro em uma delas. Quantas vezes já não vi passar da minha janela, vestindo o uniforme do colégio, ou melhor, de todos os colégios em todo o município, pessoas descalças, alteradas, falando consigo mesmas, xingando a si mesmas enquanto, em sua expressão, percebia que deixara a realidade? É aterrorizante. O símbolo de uma cidade e um estado no peito daqueles que nem ao menos sabem mais quem são.
Menos problemático são os pais, mas ainda assim, é degradante ver adultos usando a roupa da escola para ficar em casa, fazer trabalhos sujos e pesados ou sair para comprar pão. Não podemos fazer isso! Deve haver respeito pelo uniforme, assim como o respeito pelo futuro de seu filho.
Houve dias que chegaram a distribuir uniformes para o público! A própria escola, ou melhor, o governo, jogando de forma caótica o que deveria ser o primeiro princípio de ordem. Até aqueles que menos precisam de roupas não perderam a chance, parece que a ânsia da gratuidade não deixa passar nem mesmo a alma mais soberba.
É difícil, muito difícil. Ainda por cima, os uniformes são terríveis. Para não mostrar a sujeira, inventamos uma cor que já vem suja, o “cinza encardido”. Ora, as cores claras são as mais belas pois a sua beleza se relaciona exatamente com pureza no revelar de qualquer mancha de corrupção que a toque. Mas não defendo uma cor clara, mas ao menos uma cor!
Depois de tudo, os uniformes foram um fracasso. A obrigatoriedade não continuou este ano, e hoje, não o vemos em mais ninguém.
Quanto dinheiro, esforço e dor de cabeça para absolutamente nada prevalecer? Isso virou rotina, nada ser durável ou perpetuar mais que o necessário para alguém de cima sair ganhando com cada nova moda lançada. Agora, se as coisas são difíceis na parte simples e material da burocracia estatal, imagine no plano das ideias, Imagine no despertar da verdadeira educação.
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