O direito e o mérito da educação
- José Roberto Carvalho Trajano

- 26 de abr. de 2025
- 5 min de leitura
1ª Parte
Quantos professores ainda deixarão as escolas para manterem a sua sanidade?
Quantos desistirão ao se depararem com o meio insuportável que a escolarização fez da educação?
Toda ideia de educação, toda elaboração de um método atende a um certo tipo de perfil de aluno, e todos entregam, um fim único à sua formação. Assim, o resultado se faz a partir da combinação entre o tipo de aluno a se educar com o conteúdo e a forma que intende aplicar.
O problema estaria em todo novo idealista acreditar que o seu método é universal, recusando a reconhecer a realidade de que cada novo conteúdo ou forma de ensinar, exclui automaticamente um perfil de aluno e alcança até certo ponto a sua formação. Nunca haverá uma forma perfeita de educação para todos. O que então poderíamos fazer para contornar essa limitação?
Com todos os benefícios do nosso estado liberal, que entreguemos essa mesma liberdade às instituições para aplicarem o seu ideal sem estarem engessadas em diretrizes nacionais, permitindo que a liberdade e os resultados colhidos guiem as decisões dos pais e responsáveis na escolha da instituição para as suas crianças. Essa liberdade e pluralidade natural não seria muito mais realista e verdadeira para uma educação legítima do que simplesmente acreditar que inserindo em 80 anos, 40 milhões de brasileiros a mais dentro de estruturas e sistemas de ensino adeptos à uma mesma diretriz, poderia existir qualquer educação? Será que nos tornamos tão irresponsáveis assim para perdermos o direito da nossa liberdade quanto ao que se refere a educação de nossos filhos, onde sujeitá-los à um único currículo seria a nossa penitência?
Cada método exige o estudo de um perfil de aluno, quando o idealista erra ou negligência essa realidade, a aplicação de seu ideal é falha. Quando não há seleção, o caos e a fantasia reinam no lugar de sua concretude. Mas que tipo de seleção é essa? Apenas o método poderá dizer, cada um avaliará com a máxima de justiça e liberdade o aluno que se realizará dele.
Mas vale ressaltar que seleção é diferente de elitismo. No elitismo se avalia méritos que nada ou pouco se relacionam com o indivíduo e perfil do jovem, pois o que é levado em consideração são as condições de todo um entorno independentes dele, havendo assim um privilégio, ou seja, uma vantagem em nome de algum status herdado.
2ª Parte
A educação, no entanto, assim como todo o resto do esforço humano, sempre engendra ou inicia a partir de um privilégio, ou seja, um certo tipo de vantagem. Todos somos inseridos em algum privilégio, seja ele biológico, material ou social, e graças a Deus por isso! Há privilégios justos e legítimos que elevam e guiam uma sociedade, e há aqueles injustos e ilegítimos que a corrompem. O verdadeiro privilégio sempre estará atrelado a algum mérito, mesmo que desconhecido, mesmo que simplório e incompreensível.
A educação deveria assim, chegar em todos os lugares, alcançar todas as pessoas, para entregar a chance; não uma obrigação.
A educação se constrói, cresce e habita sempre algum número limitado de indivíduos. Hoje, há uma obrigação legítima do estado em oferecer esse direito a todos que possuem o mérito de frequentá-la; o grande problema, é que o direito no qual tornou-se dever, excluiu a vontade e o mérito da educação.
O que estou defendendo aqui não pode ser levado como um descaso à toa com certos indivíduos, sabemos que o amor de pai, de mãe e de avós é infinito, e neles, estará o princípio eternizado de toda a educação, porém esse sentimento pertence a eles, não ao professor, pois o que este aplica é cultura, não o amor de uma natureza que não lhe cabe. Essas palavras são uma defesa em nome daqueles que estão deixando de ter aquilo que anseiam receber através da educação, seja pela virtude que possuem, seja pelo resultado de um esforço de toda sua família. Estão deixando de ter em razão de outros que sentem estar no lugar errado.
Há algumas décadas se criara o senso comum da escolarização obrigatória e universal. Essa ideia de todo o jovem ou criança pertencer a uma escola, se transformaria em um dever; não mais um direito. Mas como podemos obrigar qualquer criança a frequentar um espaço que antes mesmo de ser um direito ou um dever de frequentá-lo, seriam necessários outros deveres para que se saiba como atuar dentro de uma sala de aula? A escola deve arcar com o direito para com todos, não um dever, pois é exigido primeiro de tudo, o seu merecimento.
3ª Parte
Se em todo o lugar de trabalho há condições mínimas de conduta para que o serviço se realize. Por que a escola seria diferente?
Todas as vezes que me refiro ao comportamento absurdo dentro da sala de aula, me chegam justificativas que essas seriam ações razoáveis, e pior ainda, que o trabalho do professor estaria na resolução dessas inconveniências, ninguém consegue aceitar ou conceber um mínimo de comportamento adequado. Tudo o que é colocado numa sala de aula deve ser tolerado pelo professor, não há qualquer responsabilidade que acompanhe o aluno, nem exigências para com os pais na formação de seus filhos. Prevalecendo uma visão fantasiosa do ensino que o impede de apresentar qualquer resultado efetivo, real e concreto. Um assunto ainda mais delicado é o novo propósito das escolas em servir de abrigo para os alunos que estão em suspeita de abuso ou negligência pelos responsáveis. Quem teria coragem de dizer não para esses casos? Ninguém. Mas precisamos compreender que há uma quantidade de casos assim que uma sala comporta sem ser prejudicada pelo comportamento dos alunos em questão, quando esse número é ultrapassado, a turma sofrerá consequências. Então se permitimos esse tipo de aluno nas escolas, é preciso que ao menos se faça um trabalho para que essa situação seja temporária. O que está sendo feito para resolver o problema? Como a escola está auxiliando a família? É esperado uma melhora ou apenas estão gastando tempo?
Este senso comum pernicioso de que todo o professor tem o dever de educar qualquer jovem que é inserido em sua sala seria razoável se o professor fosse um adulto totalmente liberto, mas com o fardo do meio docente, sua tarefa se torna específica demais para atuar de forma tão vasta.
Um adulto pode fazer o possível para educar uma criança ou jovem, o professor não. Sua função é especificamente limitada para lidar com alunos. O sistema escolar, suas diretrizes, leis, objetivos, conteúdos direcionados e tudo o mais criam barreiras para a atuação do professor na criança sem o perfil de aluno. Lidar com alunos é diferente de lidar com crianças e jovens, pois nas escolas, antes do comportamento natural da juventude, deve ser exigido o comportamento de um aluno; que comportamento seria esse? Ninguém mais sabe. Se é exigido do professor um tipo de conduta, um comportamento e uma área de atuação ou dever limitado, o jovem, antes de pôr os pés na sala de aula, precisaria conhecer primeiro os requisitos desse meio para não ultrapassarem essa área limitada do docente. Entregar alunos que não toleram a função do professor é um crime com os seus colegas, que com tanto esforço, aceitam os seus deveres como estudantes.
Comentários