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Geração desnecessária - Parte 2

7 de jul.
4 min de leitura

Toda a comoção de hoje é uma ânsia de conquistar um lugar para exercer alguma utilidade, e restam poucos lugares que o fazem realmente. Dizem que é a famosa ambição, mas não é mais que burrice, o abraço na última vela do barco que naufraga. Por toda minha juventude, busquei ser útil, útil comigo, com os outros e com meu futuro, e depois de 20 anos, fui entender que o que eu queria, e o que a sociedade também exigia de mim, não existia mais. Minha geração é a primeira geração inútil que sobreveio na sociedade moderna. Foi no meu tempo que a busca da utilidade, do ser útil, encontrou sua suficiência e fim, mesmo que conscientemente, seja negado. O meio deixou de exigir o desejo que duraria trezentos anos para satisfazer-se. Com isso, pela primeira vez, nos chega uma sensação inexplicável de indolência, que em nosso desespero, tentando simular qualquer utilidade, não a encontramos mais, penetrante, como era, em nossa consciência.

E então? Então que pioramos a situação, mesmo com essa dor interna, fingindo, inventando e falsificando utilidades como lenha para um fogo que já luta para se manter vivo. Depois do excesso de material jogado, é preciso oxigênio, é preciso espaço para respirar, tomar um grande folego e soprar as cinzas acumuladas que impedem o espalhar das chamas.

Trezentos anos de gerações úteis, gerações que derrubaram governos, ampliaram direitos, deveres e obrigações, construíram suas moradas indestrutíveis e inventaram suas engenhosidades para suprirem todo e qualquer tipo de necessidade básica que o homem poderia ter. Bem, nada é gratuito, e para cada conhecimento, há um esquecimento.

A geração útil produzira como consequência as piores e mais degradantes criações que o homem poderia encontrar, e uma delas é o entretenimento, assunto que deixarei para outra parte. É claro que se o único desejo de gerações de três séculos era sua utilidade no seu serviço ou trabalho, tudo o mais é secundário, principalmente, seu tempo livre.


Essa sensação tão grande de inutilidade não poderia sobrevir apenas em minha consciência, ela é maior, maior que eu e minha geração. Ela é algo parecido com uma doença em que os enfermos são aqueles que precisam encontrar a cura, e que os transmissores não reconhecem e não sentem mais o seu mal latente. É um vírus que se encontra adormecido no hospedeiro que não reconhece os sintomas.

Mas acabou os antídotos, não há mais remédios para adormecê-lo, agora é cura total ou aniquilação. A vacina, que era a sensação da utilidade não existe mais, e a nova geração precisa ser a solução, e ela estará sozinha, por conta própria, pois as anteriores, permanecem sedadas pelo líquido de sua ocupação na sociedade, sempre vã, mas temporariamente efetiva.

Não é mais possível enganar a si mesmo, como tentei muitas vezes, procurando ser útil quando o mundo não precisava mais, então percebo que tudo estava errado, desde minha vontade pela utilidade, até a exigência da sociedade em minha utilidade, é errado a utilidade, é pouco, é quase nada.

A utilidade é uma prisão da alma que não deve ser uma exigência da sociedade, mas algo que a própria vida naturalmente nos conduz.


Não confundamos o que somos com o que a sociedade temporariamente deseja. Ela é a mãe de todas as coisas egoístas, que longe de visar o bem do homem, visa somente ela mesma, e o deixará assim que puder.

Quantos momentos já não passamos por ela? Quantas funções criadas e extintas, quantas atividades largadas de uma década para outra? Quanta transformação exigida da educação, ajoelhando-se diante das vontades mais infames que uma era desvairada fecundaria para que ano após ano fosse abortada antes mesmo do parir das consequências, dos resultados ou da exposição à luz da razão?

O que fazer então? Apenas não exija nada da sociedade, e ela não o fará mais dano algum à sua mente.

Perceba a imensidão da inteligência de Deus em sua infinitude, eternidade e benevolência em face à uma estrutura corruptora, vazia e fugidia e não haverá mais o que temer ou se incomodar, afinal, aprendemos a auxiliar e a olhar com amor as coisas que precisam de nossa piedade. A sociedade precisa do homem, o homem precisa ser um indivíduo, o individuo precisa da alma, e a alma, precisa de Deus. O homem não precisa de nada, pois ele é um nada sem o indivíduo, e o indivíduo só pode ser com a sua alma, e a alma apenas existe ao fazer sua morada no reino dos céus.

A sociedade faz do homem um inútil, pois ele não pode alcançar por si mesmo e nem por ela sua completude. A inutilidade pertence a sociedade, veio dela, e não de Deus. Para Deus há sempre valia, do mais vicioso ao de maior virtude, quando voltamo-nos à nossa essência, já estamos sendo o que éramos para ser.


Nessa perspectiva, podemos ser inúteis sim, o que não podemos é assimilar a inutilidade como uma coisa ruim.


Agora que permanecemos apenas com o produto e não mais com a produção, que ficamos com a doença, sem o seu remédio, somos os inúteis. Mas talvez - quem sabe - somente com o desespero dos inúteis, o homem pode voltar-se à si mesmo, pois antes de sua utilidade, ele tinha outra classificação, mais importante das que todas até agora mencionadas, uma definição de Joseph Piper, que para mim, capturou a essência do homem pela primeira vez em que me veio aos olhos. Ele diz que para além do útil e do inútil, o homem é, e sempre será o ser in-útil, ou seja, que no estado ideal humano, ele encontra satisfação no contemplar em eternidade cada uma de suas ações.

 
 
 

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