Geração desnecessária - Parte 1
Há uma tensão existencial que a necessidade material, quando suprida, está provocando nas gerações que estão chegando. Dizemos que o jovem de hoje é inútil, por que é assim que todo o meio o enxerga.
Desde a sua educação na escola, ele aprenderá a viver para si. Arrumar um emprego para se sustentar e viver a sua vida é a razão máxima que irão lhe entregar - se ainda tiver sorte - como justificativa para a sua própria vida. Trabalho e serviço são problemas pessoais que precisam ser resolvidos individualmente, egoisticamente, pois pouco importa o que se faz, como se faz ou o que é realmente necessário ao seu redor, ninguém mais sabe o que é ser útil ou o que isso significa no plano geral de sua vida, pois hoje, com todo o conforto material e acesso ilimitado ao conhecimento, o que podemos fazer mais?
O mundo sempre quis que o deixássemos em paz, e ele nos suprirá com qualquer coisa para que não ponhamos as mãos nele, basta desejarmos, e essa é precisamente a nova educação: entregar uma satisfação falsa ao jovem, que o faz se despedaçar, para convencê-lo de que o mundo está bom sem ele, e que todos terão o que quiserem. O problema - quando há - estaria somente em sua cabeça, pois tudo o mais é relativo. As maldades e todas as tensões que lhe apresentam para pensar, se limitam ao rio que está poluído, as plantas sendo cortadas e até mesmo o próprio ar acabando!
Somos as gerações desnecessárias! Por trezentos anos, a supressão desvairada das necessidades e a ânsia pelo conforto material foi a busca e o sentido da própria vida, deixando tudo o mais de lado. Mas há algo de bom nisso tudo. Agora, já que não há mais necessidade, somos incumbidos da maior obrigação de todas: transcender o sentido da vida, como a nossa natureza sempre exigiu, para alcançarmos a verdadeira plenitude. Portanto, não há dúvidas de que as profissões do futuro - não tão distante - serão as contemplativas, que estimulam no homem o conhecimento de algo mais, como a filosofia e a religião. As áreas que se estendem para além da matéria útil e da busca pela informação bruta.
A inutilidade do jovem é real para a sociedade, pois é ela quem decide sobre isso. No passado, nunca houve problema de sentido, pois se vivia algo em nome da eternidade e contemplação enquanto se labutava. Agora que viemos de gerações absorvidas pela utilidade, se esquece o que está para além disso para o significado da vida.
A busca desvairada do homem em sua utilidade, na qual se estendeu por trezentos anos, chegara ao fim. Por três séculos, direcionamos nossas vidas e atenção para os resultados de invenções e descobertas que culminaram no mundo de hoje. Todo o sentido contemplativo da vida deixou-se em nome de uma curiosidade vã e minimalista quanto à sua percepção da realidade. E os resultados dessa nova fase chegou nos jovens da geração passada arrastando-os a uma total perda de sentido.
Alcançamos a independência das necessidades básicas para dependermos de coisas ainda mais baixas, originadas das próprias mãos do homem. O problema não é irreversível, mas ainda é recente para o compreendermos totalmente, pois a petrificação de todos os sonhos mais baixos aconteceu há duas gerações.
O dever agora está em nossas mãos, pois a geração utilidade, ao menos nesse pais, deixou um rastro de destruição mental. Estamos perdidos, completamente sem rumo, cambaleantes, como se estivéssemos saindo de um porre que dura séculos, e agora, ao nos depararmos com a nossas famílias caindo no abismo, nossos filhos se maltratando a si mesmos, nos desesperamos, e em razão da nossa ignorância, criamos soluções absurdas que não fazem mais que retardar os efeitos de uma vida inteira de erros.
Cada geração compactua com uma fraqueza, um dever e uma limitação, assim como cada indivíduo. Mas devemos nos perguntar: com todo esse conforto em vista, e com a conquista material que nos trouxe inúmeros benefícios, agora que alcançamos tudo isso, o que cabe à nossa geração buscar?

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